Copa dos Refugiados e Imigrantes celebra integração por meio do esporte

Publicado em 12/09/2019 - 18:20 | Atualizado em 21/11/2019 - 11:05
O zagueiro Kinito durante treino da seleção de refugiados e imigrantes de Angola no Aterro do Flamengo. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do RioO zagueiro Kinito durante treino da seleção de refugiados e imigrantes de Angola no Aterro do Flamengo. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio

Seleções de oito nacionalidades estarão reunidas na etapa Rio da Copa dos Refugiados e Imigrantes de 2019 para fortalecer a união entre os povos por meio do futebol. O objetivo da competição, apoiada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, é dar visibilidade ao contexto em que vivem os imigrantes e refugiados no Brasil, valorizar as culturas e chamar a atenção para as demandas dessa população.

Angola, Chile, Colômbia, Guiné-Bissau, Haiti, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela entrarão em campo neste sábado, 14 de setembro, para levantar a bandeira da inclusão, contra o preconceito e a xenofobia. Os jogos da etapa classificatória serão no Clube da Aeronáutica, na Barra da Tijuca. Em 21 de setembro, no fim de semana seguinte, as equipes disputarão a semifinal e a final no campo do Fluminense, em Laranjeiras. Todas as partidas são abertas ao público.

Além de promover os jogos da fase regional, o Rio será a sede da etapa Brasil em 2019. Até o fim do ano, os campeões das outras capitais participantes — Brasília (DF), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), Recife (PE) e São Paulo (SP) — chegarão à cidade para concorrer ao título nacional. No total, a competição envolve mais de mil atletas e 46 seleções de 39 nacionalidades.

Inserção no mercado de trabalho

A oportunidade de trabalhar como comerciante foi definitiva para que a família do sírio Usama Barbour, de 24 anos, elegesse o Rio de Janeiro como nova casa. Na capital fluminense desde 2016, ele e os irmãos conseguiram da Prefeitura a licença para trabalhar como ambulantes, vendendo salgados típicos do país de origem.

– Foi esse documento o que permitiu que conseguíssemos nos manter aqui. Em Brasília, onde chegamos em 2014, o trabalho era mais difícil. Hoje vendemos de 180 a 200 salgados por dia – conta.

Vídeo: saiba mais sobre os jogadores sírios

Com barracas em três pontos da cidade, os comerciantes integram o grupo de cerca de 3 mil pessoas que já receberam o crachá de Ambulante Legal da Prefeitura. Inseridos no mercado de trabalho, Usama e os irmãos Mohammad, Omran e Anas agora serão protagonistas como jogadores da seleção da Síria na Copa dos Refugiados e Imigrantes de 2019.

– Eu mesmo não jogo muito futebol, mas acho o evento importante participar para estarmos entre os amigos e trocarmos experiências – confessa o vendedor.

Outro representante da seleção síria, o estudante Adel Bakkour, de 26 anos, ressalta que o projeto é uma forma de apresentar os refugiados para os brasileiros.

– Não somos só pessoas que vieram de outro país sem ter cultura, sem ter uma vida. Estamos aqui para construir uma nova vida – reforça o jogador da equipe radicado no Rio de Janeiro desde 2012.

Na primeira edição do evento, em 2018, a equipe contou com a ajuda de um técnico brasileiro para adaptar a forma de jogar dos sírios ao estilo brasileiro.

– O futebol é uma linguagem universal. Acreditamos que os brasileiros estarão lá torcendo por nós como jogadores, não só como refugiados – aposta o estudante.

O estudante Adel, assim como a maioria dos jogadores sírios, veio para o Brasil para fugir dos conflitos que ocorrem no país de origem. Foto: Marcelo Piu / Prefeitura do Rio O estudante Adel, assim como a maioria dos jogadores sírios, veio para o Brasil para fugir dos conflitos que ocorrem no país de origem. Foto: Marcelo Piu / Prefeitura do Rio

Assim como a maioria dos integrantes do grupo, a família de Adel veio para o Brasil para fugir do serviço militar obrigatório e dos conflitos que assolam aquele país. Atualmente, ele concilia os estudos no curso de relações internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro com aulas de árabe em uma ONG na qual professores refugiados ensinam seus idiomas maternos para quem quiser aprender.

Preparados para o torneio

Campeã da etapa Rio e vice da etapa Brasil em 2018, a seleção de Angola treina semanalmente no Aterro do Flamengo, na Zona Sul. O capitão Manuel André dos Santos, de 45 anos, conta que encontrou no futebol uma forma de amenizar a saudade que sentia de sua terra natal quando chegou ao País, em 1994.

– Foi jogando bola na praia que consegui me enturmar, fazer amigos e colegas de trabalho. Um evento como esse é de extrema importância para lembrarmos que o mundo é de todos nós. A história nos mostra que muito do que está construído no Brasil é por conta dos imigrantes: aqueles que foram escravizados, os europeus colonizadores. Quando pensamos dessa forma, nos abrimos para acabar com o preconceito – destaca o volante.

A seleção de refugiados e imigrantes de Angola faz pose para a foto, com o capitão Manuel André dos Santos ao centro: futebol é um jeito de matar a saudade de casa. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio A seleção de refugiados e imigrantes de Angola faz pose para a foto, com o capitão Manuel André dos Santos ao centro: futebol é um jeito de matar a saudade de casa. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio

Responsável por incentivar a equipe a manter o ritmo até a competição, o técnico Garcia Neto Zacarias fundou a seleção como forma de resgatar o sentimento de pertencimento entre os conterrâneos.

– O esporte é uma das formas que encontramos de fortalecer nossa comunidade. Quando entramos no gramado, as diferenças ficam de lado. A única bandeira que estendemos é a da integração e da convivência entre os povos – reforça.

Aos 54 anos, o representante comercial está no Rio de Janeiro desde 1987, quando fugiu da guerra civil em seu país de origem. Radicado na cidade há mais de 30 anos, o treinador avalia que não há povo mais receptivo e de melhor comunicação do que o carioca. Atualmente, ele divide o tempo entre o trabalho, os treinos de futebol e a regência do coral africano Amor do Senhor, também formado por imigrantes.

A seleção de Angola se divide em times branco e vermelho nos treinamentos aos sábados, no Aterro do Flamengo. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio A seleção de Angola se divide em times branco e vermelho nos treinamentos aos sábados, no Aterro do Flamengo. Foto: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio

Programação

A Copa dos Refugiados e Imigrantes é organizada pela ONG África do Coração, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e  entidades envolvidas com o assunto. O tema neste ano é Reserve um minuto para ouvir uma pessoa que foi forçada a deixar o seu país.

Nas semanas do torneio, a Subsecretaria de Direitos Humanos da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos desenvolverá congressos técnicos e os eventos Voz dos Refugiados e Voz das Mulheres, com debates voltados para a troca de experiências.

Durante a etapa classificatória, a secretaria promoverá um mutirão social no terminal do BRT Alvorada, na Barra da Tijuca. No local dos jogos haverá ainda uma feira cultural em que imigrantes e refugiados apresentarão seus trabalhos artísticos.

Para o secretário João Mendes, o evento serve como uma ferramenta para reforçar a proteção, o respeito e os direitos da população de imigrantes e refugiados.

– Não é fácil sair de seu país de origem, de sua casa, e ter de começar tudo novamente em terra estranha. A iniciativa é importante porque vislumbra a igualdade entre as nacionalidades e o combate a xenofobia e os preconceitos – avalia o titular.

Entenda a diferença entre os conceitos

Migração é o movimento de entrada, permanente ou temporária, com intenção de trabalho ou residência, de pessoas ou populações de uma determinada área de um país para outra, ou de continente para outro. Uma mesma pessoa pode ser ao mesmo tempo emigrante e imigrante, a depender do ponto de vista do estado de origem ou de destino.

Até o final de 2018, o Brasil reconheceu 11.231 refugiados de diversas nacionalidades, de acordo com dados do Comitê Nacional para os Refugiados, do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Desse total, os sírios representam 36% da população refugiada com registro ativo no Brasil, seguidos dos congoleses, com 15%, e angolanos, com 9%. Ainda segundo o órgão, o país recebeu mais de 160 mil solicitações de reconhecimento da condição de refugiado até dezembro.

Refugiado
Pessoa que deixa o seu país de origem ou de residência habitual sob fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social, opiniões políticas, ou por grave violação de direitos humanos.

Solicitante de refúgio
Migrante que, tendo formalizado seu pedido de refúgio ao governo brasileiro, aguarda decisão de sua solicitação.

Visto humanitário
Pode ser aplicado nas mesmas situações que o reconhecimento da situação de refúgio, mas também contempla vítimas de crises econômicas e ambientais. No Brasil, há resoluções normativas que preveem esse tipo de visto para haitianos e sírios.

Copa dos Refugiados 2019 – Etapa Rio

Classificatória

Data: 14 de setembro

Horário: Das 8 às 17 horas

Local: Clube da Aeronáutica (Avenida Rachel de Queiroz, Barra da Tijuca)

Semifinal e final

Data: 21 de setembro

Horário: Das 8 às 17 horas

Local: Estádio das Laranjeiras (Rua Pinheiro Machado, 86-126, Laranjeiras).