Consciência negra, igualdade e oportunidade

Publicado em 18/11/2019 - 19:22 | Atualizado em 18/11/2019 - 19:26
Foto: Wanderson Cruz / Prefeitura do Rio

*Por João Mendes de Jesus

Toda vez quando eu olho a minha sombra no chão ou nas paredes dos prédios e das casas percebo que a minha silhueta é a de um ser humano.

Tal constatação me leva a afirmar que todos os cidadãos são iguais perante Deus e as leis dos homens. No caso, as que vicejam no Brasil, País sob os ditames do Estado Democrático de Direito, que é o indutor da democracia.

Trata-se de minha sombra, a sombra do meu corpo, que é similar a de qualquer corpo humano, seja ele masculino ou feminino, negro ou branco, vermelho ou amarelo.

Tenho, e muitos como eu de etnia negra, a plena consciência de que todos os seres humanos, homens e mulheres, nascem iguais perante a lei e a sociedade.

Todos os cidadãos e cidadãs nascem com boa índole e, no decorrer do tempo, trilham seus caminhos, às vezes por veredas tortuosas, mas a maioria segue a normalidade da vida, que é de crescer, trabalhar, estudar, casar, criar filhos, até que estes também cresçam para darem continuidade a mais um ciclo de vida, por intermédio das gerações.

Contudo, sabemos nós, e de antemão, que a vida tem seus percalços e barreiras, e um dos piores deles, talvez o mais infame, é o racismo praticado por certos cidadãos ou grupos que medem as pessoas por suas réguas desditosas e que causam dor, não somente àquele que foi alvo de racismo, mas, sobretudo, à sociedade, que sempre paga um preço alto quando ocorrem os conflitos sociais e étnico-raciais.

Quero dizer que o racismo, tanto o dissimulado quanto o explícito é, indubitavelmente, uma caixa de Pandora, que, quando aberta, solta seus monstros.

É assim que acontece no mundo e também no Brasil, quando vemos muitas pessoas de origem racial negra saírem às ruas para protestar quando se sentem acuadas pelo Estado policial ou sem oportunidade nos mercados de trabalho e de consumo, além de quase nenhum acesso à educação de boa qualidade.

O Brasil é País portador de racismo, e nele vive uma parcela da população que qualifica e desqualifica a pessoa pela cor de sua pele, pelos seus traços e cabelos e pela sua face.

Por seu turno, os mesmos indivíduos que têm a desfaçatez de avaliar seu semelhante por suas características étnicas, recusam-se, perfidamente e desumanamente, avaliar o cidadão negro e de classe social diferente por seu bom caráter, sua generosidade e solidariedade, por sua inteligência e capacidade de trabalho.

O racismo é o pai do ódio e da desunião das civilizações. Ele tem conotação diabólica e leva à tona a violência e a discórdia.

O racismo tem como propósito fundamental separar a humanidade em guetos, por intermédio das distâncias, dos muros visíveis e invisíveis, porque seu caráter é elitista e todo elitista é preconceituoso.

O racista quer um mundo somente para ele e para os que ele considera seus “iguais”, porque, no fundo, ele é um ser fraco, medroso, pusilânime e covarde.

Tal sujeito equivocado por natureza nasceu puro, bom e mereceria viver em um mundo plural e democrático, solidário e diversificado, onde todos os seres humanos respeitassem suas diferenças e combatessem as desigualdades socioeconômicas.

E por quê? Porque são exatamente essas questões humanas e realidades sociais que fazem o mundo e as sociedades avançarem e se desenvolverem, quando, evidentemente, uma sociedade resolve dialogar para resolver as diferenças e, com efeito, efetivar a igualdade de oportunidade.

Entretanto, a face mais dantesca, a mais draconiana do racismo tem como principal propósito o separatismo, porque tem como essência erguer, tijolo a tijolo, o muro do sectarismo, que se traduz na reserva de mercado por parte das classes dominantes, que tem como plano de fundo o  interesse econômico e social.

Esta é a questão a ser analisada, avaliada e compreendida, além de ser combatida pelo poder público. O racista luta, sobretudo, por privilégios e benefícios, porque sua visão de mundo é curta, rasa e estreita. Porém, não tem profundidade e muito menos razão quando não consegue compreender as diferenças humanas, que são forças de nossa sobrevivência e pluralidade através de milênios, bem como raça não existe, pois o que existe é a espécie humana.

O racista quer um mundo VIP, e para poucos. Ele deseja uma sociedade de castas, e, para atingir seus propósitos infames e sórdidos, utiliza-se de preconceitos e apoia lideranças fanáticas e fundamentalistas em todos os setores e segmentos da sociedade.

Lideranças cruéis e desassossegadas de alma e espírito, mas dispostas a dividir a humanidade, como se a humanidade não fosse uma só, pois única e indivisível.

Portanto, afirmo que o Dia 20 de Novembro, o Dia da Consciência Negra, é, mais do que tudo, um dia de ponderação, de pensar na história e lembrar das terríveis consequências que tal sentimento equivocado e perverso, a exemplo do racismo, propicia às sociedades, às nações, aos países e à humanidade.

Racismo é guerra. A humanidade necessita de paz.

  • 18 de novembro de 2019