Após 20 anos morando nas ruas, idoso encontra acolhimento em abrigo da Prefeitura

Publicado em 22/04/2021 - 15:59 | Atualizado
José Ricardo Pereira, de 65 anos, está morando em abrigo com boas condições, o Espaço Taquara - Fernando Maia/Prefeitura do Rio

Depois de 20 anos morando nas ruas do Rio, sendo os últimos oito dormindo ao relento nos bancos do Hospital Lourenço Jorge, José Ricardo Pereira, de 65 anos, mudou de vida recentemente. Acolhido por profissionais da Secretaria Municipal de Assistência Social, ele aceitou morar num abrigo em boas condições, o Espaço Taquara, que no último fim de semana passou a ter biblioteca e videoteca.

– Estava procurando um lugar onde eu pudesse me sentir em casa, rodeado de amigos – descreveu ele, que se sentiu protegido no novo habitat. – Aqui, os funcionários olham no olho da gente, sempre nos chamam com carinho e cuidado para fazer as refeições. Aqui encontrei uma verdadeira família! Mesmo quando alguém acorda mais ou menos, com algum problema, os funcionários sempre nos tratam com paciência e tudo se resolve da melhor forma possível.

O caso de José é um entre vários exemplos de vidas recuperadas pelas equipes da Secretaria Municipal de Assistência Social. Nos três primeiros meses de 2021, o número de atendimentos a pessoas em situação vulnerável na cidade chegou a 265.719. A marca representa um recorde da pasta. Desse número, 229.978 atendimentos foram feitos pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS); um crescimento de 34% em relação ao total de serviços realizados no mesmo período do ano passado. Os CRAS trabalham preventivamente na garantia de direitos das famílias em situação de vulnerabilidade social.

 

Assistência Social acolheu em sua rede 2.936 pessoas em situação de rua – Fernando Maia/Prefeitura

 

Antes de se deitar em bancos do Hospital Lourenço Jorge, José Ricardo dormiu em calçadas da Avenida Presidente Vargas e em Copacabana, onde foi abordado pela primeira vez por equipe da Secretaria Municipal de Assistência Social. – Nunca quis ir para abrigo, temia ficar preso – rememorou ele.

Carioca de nascimento, mudou-se para Minas Gerais depois de seu casamento. Lá, teve duas filhas, Jéssica e Joyce. Quando sua esposa faleceu (ele preferiu não falar o nome da esposa, pois “não se deve falar o nome dos mortos em vão”), José Ricardo voltou para o Rio de Janeiro para dar entrada na sua aposentadoria. Quando chegou à cidade, descobriu que o único bem que possuía, uma casa no centro de Nova Iguaçu, tinha sido vendida sem sua autorização. E não restou-lhe outra alternativa: passou a viver nas ruas.

José Ricardo sempre trabalhou com soldas e faz bicos na Barra da Tijuca, principalmente em bares da Olegário Maciel, onde é conhecido como “Seu Madruga”. Também fazia reparos no Hospital Lourenço Jorge, como conserto de bancos e portas. Pela maioria desses trabalhos, ele não é remunerado, mas conseguia doações de roupas, alimentos e também conquistou a confiança dos seguranças e prestadores de serviço do hospital, que sempre o ajudavam. O pouco dinheiro que sobra, manda para as filhas, e antes comprava sabonete e roupas íntimas.

Quando chegou ao Espaço Taquara, em 27 de março, José Ricardo estava passando mal. “Sou cardíaco e precisava de um atendimento médico. Eles me levaram em uma UPA e me atenderam na hora. Saí de lá com consulta marcada com cardiologista. Em todos esses 20 anos na rua, isso nunca tinha acontecido. Me senti especial”, declarou.

O acolhimento de José Ricardo foi realizado pela parceria do Espaço Taquara com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) Daniela Perez. A diretora Cirenice de Souza Nascimento contou que José Ricardo fez questão de ir até o CREAS agradecer o trabalho das assistentes sociais que o encaminharam para o Espaço Taquara. E lembrou que ele chegou ao CREAS com um saco de lixo nas mãos, com seus poucos pertencentes, sem banho e com os cabelos e a barba desgrenhados e muito compridos.

Agora, José Ricardo está com roupas novas, já conseguiu tirar a segunda via de sua certidão de nascimento e também marcou data no DETRAN para retirar a segunda via do documento de identidade. Está aguardando, com ansiedade, para tomar a sua dose da vacina contra a covid-19 e, no dia 15 de maio, vai dar entrada na sua aposentadoria. “Eu tenho certeza que já deu tudo certo! Assim que eu me organizar aqui no Rio de Janeiro e a minha aposentadoria sair, vou voltar para Minas Gerais”.

 

José Ricardo se diz feliz com a nova vida – Fernando Maia/Prefeitura

 

Os CREAS cuidam das violações de direitos das populações vulneráveis, de idosos, crianças e adolescentes vítimas de violência, e de moradores em situação de rua. Enquanto os CRAS trabalham preventivamente na garantia de direitos das famílias em situação de vulnerabilidade social.

Como José Ricardo, entre 1º de janeiro e 31 de março de 2021, a Assistência Social acolheu em sua rede 2.936 pessoas em situação de rua, atendidas por abordagem social. O acolhimento só pode ser feito com consentimento do morador em situação de rua, de acordo com a legislação de defesa dos direitos humanos. Assim como José Ricardo, muitos moradores em situação de rua são atendidos várias vezes e nem sempre aceitam acolhida num abrigo.

– Nosso trabalho é melhorar as condições dos abrigos, é tornar visível essa população vulnerável da nossa sociedade, oferecendo-lhe melhores condições de vida – afirmou a secretária municipal de Assistência Social, Laura Carneiro.

A secretaria informou que, para melhorar a qualidade do atendimento, dois CRAS foram construídos, um está sendo erguido e dez passaram por reparos e/ou manutenção. Além disso, cinco Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) receberam melhorias.