Secretaria lança 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca e consolida política pública no Rio orientada por dados

Publicado em 03/03/2026 - 12:07 | Atualizado em 03/03/2026 - 12:12
Levantamento reúne dados sobre feminicídio, violência, economia do cuidado e geração de renda, orientando ações estratégicas de proteção e inclusão econômica feminina - Divulgação

No mês da mulher, a Secretaria de Políticas para Mulheres e Cuidados lança, nesta terça-feira (3/3), a quinta edição do Mapa da Mulher Carioca e reforça uma pauta urgente e necessária: o enfrentamento à violência contra as mulheres no Rio de Janeiro e os caminhos de reconstrução que muitas estão trilhando por meio do estudo e da autonomia econômica. Apenas em 2024 foram registradas 102.470 notificações de ameaça no município, sendo 67.090 contra mulheres, que representam 65,5% das vítimas. Nos casos de lesão corporal, elas também são maioria: 42.107 vítimas, o equivalente a 64,9% dos registros. A violência sexual mantém o padrão: das 1.701 notificações de estupro, 85,8% tiveram mulheres como vítimas, com mais de mil casos envolvendo crianças e adolescentes.

A letalidade revela um cenário ainda mais grave. Entre 2020 e 2024, o número de feminicídios saltou de 18 para 51 casos anuais, um crescimento de 183,3%. Somente em 2024, 72,5% das vítimas eram mulheres negras e 76,5% dos crimes aconteceram dentro de casa. Em dois terços das ocorrências, o autor era companheiro ou ex-companheiro. Os dados da saúde também reforçam esse retrato: 78,4% das 27.760 notificações de violência registradas na rede municipal foram contra mulheres.

O levantamento, separado em 12 capítulos, evidencia, por exemplo, que mulheres dedicam 364 horas a mais por ano ao trabalho doméstico que os homens; registros de pais ausentes cresceram 4,5% entre 2020 e 2025.; e que políticas de geração de renda no município, como o programa Mulheres do Rio e o EmpregaElas, têm foco prioritário em mulheres negras e moradoras das zonas Norte e Oeste, onde a vulnerabilidade é maior. No dia 7, na Barra Olímpica, terá a aula inaugural dos cursos do programa Mulheres do Rio.

O conteúdo completo do Mapa pode ser acessado no site da secretaria.

Sobre o Mapa da Mulher Carioca

Criado em 2021, o Mapa teve sua primeira edição estruturada a partir dos eixos de gênero, raça e território, evidenciando desigualdades salariais, barreiras de acesso a serviços e disparidades regionais. A edição 2025 do Mapa da Mulher Carioca representa um avanço na consolidação do projeto, com a ampliação para mais de 300 indicadores organizados em 12 capítulos temáticos. A nova estrutura fortalece a integração entre diagnóstico e políticas públicas, tornando a análise mais articulada e estratégica. O capítulo Radar de Dados inaugura essa organização ao situar o cenário do município em perspectiva multiescalar, do contexto internacional ao local, oferecendo uma leitura contextualizada das dinâmicas que impactam a vida das mulheres na cidade.

O eixo Violências Contra a Mulher ocupa posição central e reúne o maior volume de variáveis monitoradas, integrando dados de sistemas oficiais, forças de segurança e políticas municipais para dimensionar tanto a incidência das violências quanto a resposta institucional. A edição também aprofunda áreas estruturantes como cuidados, segurança pública, meninas, saúde, educação, emprego e renda, cultura e assistência social, além de ampliar a análise interseccional no capítulo Mulheres, com recortes específicos sobre mulheres negras, LBT, com deficiência, migrantes e refugiadas, em situação de rua e em contextos religiosos.

Para a secretária de Políticas para Mulheres e Cuidados, Joyce Trindade, o Mapa consolida uma mudança de método na gestão pública.

– Não é possível enfrentar feminicídio, violência de gênero, desigualdade e pobreza sem diagnóstico preciso. O Mapa da Mulher Carioca organiza dados, revela onde estão as maiores fragilidades e orienta cada política da secretaria com base em evidências para que possamos salvar vidas de mulheres.

 

A seguir, confira um panorama dos principais dados e análises que compõem os capítulos do Mapa da Mulher Carioca 2025.

Radar de Dados

Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, o maior número da série histórica, equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia. O estado do Rio de Janeiro ocupa a terceira posição nacional, com 104 vítimas. A violência doméstica também alcança dimensão alarmante: mais de 23,6 milhões de brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar, sendo mais de 2,5 milhões no estado. Em 71% das agressões com testemunhas, crianças presenciaram a violência, evidenciando seu impacto intergeracional.

No município do Rio, as mulheres representam 53,2% da população e se aproximam de 60% entre os idosos. No mercado de trabalho, a desigualdade salarial permanece expressiva: a diferença é de R$ 762, o equivalente a 54% de um salário mínimo. Na prática, isso faz com que mulheres tenham sua autonomia econômica e perspectivas ao longo da vida comprometidas.

Violência contra a Mulher

Em 2024, as mulheres foram 65,5% das vítimas de ameaça e 64,9% das vítimas de lesão corporal no município, sendo metade ou mais dessas vítimas negras. Nos crimes sexuais registrados no mesmo ano, elas representaram 90,8% das vítimas de importunação sexual, 90,84% de assédio sexual e 86% dos casos de estupro e estupro de vulnerável, dois terços envolvendo crianças e adolescentes. A residência concentrou 86,2% das notificações registradas por equipamentos de saúde, tendo como principais autores parceiros ou ex-parceiros.

O feminicídio triplicou desde 2020, chegando a 51 casos consumados em 2024, além de 117 tentativas, aumento de 85,7% no período. Sete em cada dez vítimas eram mulheres negras e 75% dos crimes ocorreram dentro de casa. Como resposta, a Patrulha Maria da Penha realizou cerca de 73.700 fiscalizações anuais em 2024 e 2025; a Ronda Maria da Penha ampliou o atendimento de 3.761 mulheres em 2023 para 5.951 em 2025; os CEAMs e NEAMs somaram 25.385 atendimentos; o Abrigo Casa Viva Mulher Cora Coralina realizou 4.119 atendimentos; e as Casas da Mulher Carioca contabilizaram 176.373 atendimentos.

Cuidado

As mulheres cariocas dedicam cerca de 19 horas e 49 minutos semanais ao cuidado e aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam 12 horas e 25 minutos, diferença que representa 364 horas a mais por ano de trabalho não remunerado para elas. Além disso, concentram 85,2% do preparo de alimentos e 81,9% da lavagem de roupas. Mulheres negras ultrapassam 20 horas semanais e são maioria no cuidado de parentes no domicílio.

A maternidade também estrutura os arranjos familiares: 64,8% das mulheres são mães, cerca de 1,97 milhão na cidade. Registros de pais ausentes cresceram 4,5% entre 2020 e 2025. Além disso, 15,9% dos domicílios são compostos por mulheres sem cônjuge com filhos, frente a 2,3% entre homens na mesma condição.

Segurança Pública

A população feminina no sistema prisional passou de 3.366 mulheres no início de 2024 para 3.485 no primeiro semestre de 2025, crescimento de 3,5%, enquanto a população masculina caiu cerca de 4,5%. O município conta com apenas quatro unidades femininas, sendo uma com berçário, e a primeira creche do sistema foi criada em 2025.

A estrutura de saúde é limitada: há quatro ginecologistas para atender todas as mulheres privadas de liberdade, proporção de uma especialista para cada 871 mulheres. As visitas caíram de 7.050 em 2024 para 974 em 2025, redução de 86,2%, indicando maior isolamento no cárcere feminino.

Meninas

O município possui 223.811 meninas de 0 a 6 anos e 356.528 adolescentes de 10 a 19 anos, sendo 59% pretas ou pardas. Em 2025, foram registrados 5.341 nascimentos de mães adolescentes, dos quais 74,2% envolveram jovens negras.

Em 2024, houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com 3 em cada 5 casos das vítimas de violência sexual sendo meninas. A maioria das ocorrências ocorreu dentro da residência, 46,9%, e foi cometida por familiares, 61,2%. Também foram registrados 1.880 casos de violência autoprovocada, incluindo 1.715 tentativas de suicídio. Entre meninas acolhidas na Rede Abrigo, 73,2% são negras e 87,04% têm histórico prévio de violência.

Saúde

Na Atenção Primária, as ações de saúde sexual e reprodutiva ultrapassaram 1,5 milhão de atendimentos, representando 51,3% do total nas UBS. Foram realizados mais de 640 mil atendimentos de pré-natal, 42 mil de puerpério e 773 mil atendimentos em saúde mental.

Em 2025, registraram-se 1.110 óbitos por câncer de mama e 227 por câncer do colo do útero. A razão de mortalidade materna foi de 48,7 por 100 mil nascidos vivos em 2024 e 73,3 em 2025. Entre mulheres com sífilis adquirida, 53,2% são negras; entre as notificadas com HIV, 88,5% são negras. Houve 8.332 notificações de tentativa de suicídio e automutilação, cerca de dois terços envolvendo mulheres, que também representam 65% dos casos de intoxicação exógena.

Assistência Social

No biênio analisado, o programa Lares Cariocas realizou 21 acolhimentos de mulheres, priorizando gestantes e mães com filhos de até dois anos em situação de rua. Em 2025, 201 jovens mulheres cumpriam medidas socioeducativas, crescimento de 16,8%, e o programa Família Acolhedora atendeu 88 meninas.

O Cartão Primeira Infância Carioca destina 96,2% de seus 28.380 benefícios a mulheres. No Bolsa Família, 82,5% das famílias são chefiadas por mulheres, e após o benefício houve redução de cerca de 62% na pobreza entre essas famílias. No Cadastro Único, 61,1% das pessoas inscritas são mulheres e 75% das famílias são chefiadas por elas, 68,4% negras, com Índice de Vulnerabilidade maior nos lares femininos, 0,287, do que nos masculinos, 0,269.

Educação

As mulheres representam 57,2% das matrículas e conclusões no Ensino Superior. Na Educação Básica há equilíbrio entre os sexos, com 39,5% das alunas sendo negras, e nos GETs a participação é equilibrada, com maioria de meninas negras.

Elas também são maioria entre profissionais da rede municipal, 83,5%, e na gestão escolar privada, 79,9%. Apesar disso, os homens apresentam proporcionalmente maior titulação em mestrado e doutorado, indicando desigualdades na progressão acadêmica.

Emprego e Renda

No 3º trimestre de 2025, o rendimento médio feminino foi de R$ 4.836, equivalente a 75% do rendimento masculino, R$ 6.403, diferença de R$ 1.567 mensais. A taxa de desocupação feminina é de 8,9%, chegando a 10,6% entre mulheres negras, e 34% das ocupadas estão na informalidade, índice que atinge 41% entre negras.

A inserção feminina concentra-se no setor de serviços, responsável por 77,15% das novas ocupações, com destaque para educação, 71,61%, e saúde, 62,58%, enquanto a baixa presença na indústria e construção evidencia segregação ocupacional.

Cultura

Dos 29 equipamentos públicos da Secretaria Municipal de Cultura que homenageiam mulheres, 58,6% são museus. Nos logradouros urbanos analisados, 71,9% homenageiam homens e apenas 18% mulheres.

Entre 2022 e 2025, houve 16 homenagens a mulheres nos sambas-enredo das principais ligas do Carnaval, 68,8% na Série Ouro. Na RioFilme, a participação feminina nas propostas contempladas passou de 79,4% em 2023 para 88,3% em 2024.

Mulheres

Entre mulheres quilombolas, 99% vivem fora de territórios reconhecidos. As baianas do acarajé são majoritariamente negras, 83%, concentradas na Zona Norte. Em 2025, foram registradas 40 notificações de violência contra travestis e 125 contra mulheres transexuais.

Mulheres com deficiência representam 74,7% das notificações de violência, sendo cerca de 68% negras. Mulheres em situação de rua correspondem a 16,9% dessa população, mais de 80% negras. Mais de 86% das mulheres cariocas declaram vínculo religioso.

CODIM e IV Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres

O CODIM, criado pela Lei nº 5.879 de 2015, atua na formulação, monitoramento e fiscalização das políticas públicas de gênero no município.

A IV Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres, realizada em 2025 após dez anos, reuniu 421 participantes, 60,1% mulheres negras. Foram eleitas 56 delegadas, 32 da sociedade civil e 24 do governo.

  • 3 de março de 2026
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