Aleitamento materno: Agosto Dourado chama atenção para a defesa do direito de mulheres e crianças

Publicado em 02/08/2021 - 18:24 | Atualizado em 02/08/2021 - 19:15
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Mãe recebe orientação sobre amamentação - Divulgação / Prefeitura do Rio

Todos os anos, de 1 a 7 de agosto, a Semana Mundial de Aleitamento Materno incentiva a amamentação exclusiva e esclarece sobre seus benefícios. Neste ano, o foco é transmitido no tema “Proteger a Amamentação: Uma responsabilidade de todos”, que reforça o dever de toda a sociedade se comprometer com a proteção deste direito de mulheres e crianças. A celebração faz parte do Agosto Dourado, campanha que dedica o mês inteiro à amamentação.

Na rede municipal de saúde, o incentivo ao aleitamento começa já no pré-natal. O Programa Cegonha Carioca, projeto pioneiro que oferta cuidado humanizado para mãe e bebê desde o início da gestação, estimula as mulheres grávidas a amamentar exclusivamente com leite materno até os seis meses de idade. Este é um dos fatores da redução da mortalidade infantil, com benefícios duradouros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a amamentação até os dois anos de idade ou mais, com introdução de alimentação complementar somente após os seis meses de vida.

Para o bebê, a amamentação é considerada a primeira vacina, tamanho o seu benefício para o organismo. Diminui cólicas, cáries e o risco de desnutrição, proporcionando ganho de peso saudável, com menor risco de obesidade; reduz as chances de broncoaspiração (entrada de leite nas vias aéreas), assim como a possibilidade de alergia alimentar e respiratória; infecções respiratórias (pneumonias), urinárias e intestinais, diarreias e outras doenças. E ainda contribui para o desenvolvimento intelectual.

O leite materno é um alimento ideal, pois possui os nutrientes na quantidade e qualidade adequadas que o bebê precisa para se desenvolver com saúde. Fornece ao bebê anticorpos, fortalecendo o seu sistema imunológico.

 

– Num momento tão difícil como este pelo qual estamos passando, o leite materno é o maior presente que a mulher pode oferecer. Além dos nutrientes, fornece proteção, tanto que incentivamos muito as lactantes a tomar a vacina para que seus bebês recebam também, por meio do leite materno, a imunidade – explica a fonoaudióloga especializada no atendimento a recém-nascidos Márcia Monteiro, do Centro Municipal de Saúde (CMS) Waldyr Franco, em Bangu.

 

A mulher que amamenta tem menor risco de desenvolver câncer de mama e ovário e hemorragias no pós-parto. A amamentação contribui ainda para a perda de peso mais rápido. E cria um forte vínculo afetivo entre mãe e filho.

Orientação e apoio

No entanto, a dificuldade em amamentar é comum. Podem surgir dúvidas e inseguranças nesse período, por isso o apoio profissional muitas vezes é determinante para o êxito do processo de aprendizado e adaptação. As dificuldades podem ser físicas, como mastite (infecção dolorosa) e fissuras na mama, mas também emocional ou social. O apoio do companheiro pode fazer a diferença, assim como o da família, amigos e da comunidade ao redor.

As mulheres que amamentam precisam lidar também, além dos desafios do próprio corpo e da relação com o bebê, com o preconceito. Em muitos espaços, amamentar em público ainda é um tabu. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante o direito a mãe e bebê a ser respeitado e apoiado por todos. Amamentar em público é natural, e não há hora ou local inadequados para a amamentação.

O apoio coletivo é, portanto, instrumento de assistência em muitas das unidades de saúde, que organizam grupos de mães que estão amamentando para trocas de experiências. Nas unidades de atenção primária (clínicas da família e centros municipais de saúde), as equipes estão prontas para receber todas as mães que tenham dúvidas ou dificuldades. As mulheres recebem a orientação de como lidar com as adversidades.

Márcia trabalha há dez anos no acolhimento a famílias, acompanhando casos de bebês prematuros ou com baixo peso que sobrevivem graças ao aleitamento. Ela conta que o trabalho conjunto no CMS Waldyr Franco começa por uma avaliação e inclui o acompanhamento por pediatra. A profissional realiza reuniões virtuais, forma como conseguiram manter o suporte mesmo durante a pandemia. Nelas, usa uma mama de feltro para mostrar os detalhes do seio por dentro, inclusive, explicando como ofertar, proporcionando a pega correta, mais confortável para mãe e bebê.

 

– O importante é a interação entre mãe e bebê. Pedimos a elas que não desistam. É possível continuar a amamentar mesmo com o retorno ao trabalho, por exemplo. Procurem a unidade mais próxima, onde vão encontrar um profissional capacitado. A consulta de acolhimento pode durar minutos ou horas, de acordo com a necessidade. E reforçamos sempre que não existe leite fraco. Mostramos como é a mama e explicamos como funciona, em uma linguagem que elas entendam. Nós fazemos com muito amor – relata.

 

Bancos de vida

Nos bancos de leite humano, são realizadas doações que salvam vidas de bebês que necessitem, por estar internado ou por não conseguir ser amamentado pela mãe. Cada pote de 300 ml de leite pode ajudar até dez recém-nascidos. O Brasil é referência em doação de leite. A Rede Brasileira de Banco de Leite Humano é a maior e mais complexa do mundo, com 224 bancos e 216 postos de coleta, disponíveis em todos os estados. Na Cidade do Rio, bancos e postos de recebimento estão disponíveis em diversos bairros.

As doações passam por um processo de pasteurização e controle de qualidade para ser utilizadas pelos bebês internados nas unidades neonatais. Equipes especializadas orientam as mães como retirar e ofertar o leite ao bebê. Não há quantidade mínima para doação e não é necessário ter uma produção excessiva para ser doadora. A produção segue a demanda: quanto mais leite é retirado, seja pela sucção do bebê ou para doação, mais leite o corpo produz.

 

– A doação ajuda a mãe doadora também, que em vez de jogar fora o leite pode ofertar a outra criança – explica a enfermeira Jane Horário da Silva, especialista em Promoção da Saúde que atua no CMS Américo Veloso, em Ramos.

 

A unidade, onde há uma sala preparada para acolher a família nesse momento, também oferece apoio presencial e pelo Whatsapp às mães que necessitam. Elas são também incentivadas a se tornar doadoras.

 

– Assim, muitas vidas são salvas. Escutamos as preocupações e dúvidas dessas mães, apoiamos e fortalecemos por meio do grupo de mulheres doadoras. Independente de quanto seja a doação, é sempre um grande ganho bilateral, em que todos saem ganhando. Ao esvaziar a mama, se sente aliviada. É o momento de mostrar já a questão da solidariedade ao filho – ressalta Jane, que faz questão de frisar que não há diferença entre os leites maternos:  – Todos são perfeitos.

 

Nas consultas, também são observadas as situações psicológica e social das famílias, que podem ser alvo de cuidado e impactam na amamentação. O trabalho multiprofissional envolve até mesmo o educador físico, se necessário.

 

– A mãe sai amamentando – conta Jane, orgulhosa.

 

Uma das mulheres assistidas no CMS, Josiane de Lucena é considerada a maior doadora da unidade. Mãe de dois filhos, amamenta o mais novo, David Luís, de três meses. Ela buscou apoio porque no começo a amamentação causava dor:

 

– Eu estava quase desistindo, mas com ajuda eu não senti mais. Perguntaram então se eu poderia doar. Eu tenho muito, então, se puder ajudar outros, eu quero. Tenho um sentimento muito bom de gratidão e felicidade de poder estar ajudando outros bebês. Meu filho mama direto e doar estimulou mais a produção. Vou amamentar até não poder mais.

 

Transformando a dor em motivação

Thayná Alvarenga Miranda Augusto transformou a impotência em atitude. Mãe de três filhos, ela também é assistida pela equipe do CMS Américo Veloso. O filho mais novo, Noah, hoje com sete meses, nasceu bem pequeno e demorou um pouco para recuperar o peso que havia perdido ao nascer:

 

– Eu precisava muito amamentar, e meus seios começaram a rachar. Esse período foi bem dolorido. Mas como ele estava correndo risco de precisar complementar a alimentação com fórmulas, eu mantive o peito o máximo que podia. E depois de alguns dias o bico cicatrizou, e ele continuou mamando e ganhando peso.

 

Há meses Thayná doa leite por meio do posto de recebimento de leite humano do CMS:

 

– Sempre tento doar um pote por semana, pelo menos. Eu já estive internada em maternidade várias vezes por muitos dias. Então vi muita coisa, muito desespero de mulheres que tiveram seus bebês muito pequenos. Quando meu último filho nasceu, fiquei em uma enfermaria em que uma mãe teve um bebê de 25 semanas com meio quilo. Ela contou chorando tanto que, ao mesmo tempo que queria ajudar, me senti tão impotente. Fiquei devastada com a história. Levando meu filho numa consulta de rotina, a Jane me convidou para doar leite. A princípio aceitei sem imaginar a importância exata desse ato. Fui perceber de verdade depois de ver o pessoal do posto fazendo tanto esforço para conseguir leite. Por isso, sempre faço uma meta pessoal de doar pelo menos uma vez por semana. É um jeito que tenho de ajudar aqueles bebês que estão em UTI e de gratidão também a Deus por ter tido três filhos perfeitos e conseguir amamentar com tranquilidade os três. Eu amo amamentar. Acho bonitinho os olhos deles quando estão mamando.

 

Paciente do CMS Flávio do Couto Vieira, que fica em Parque Anchieta, Jéssica Machado da Silva dos Santos amamenta Gael, seu terceiro filho, que ainda não completou um mês. Ela conta que, apesar da dificuldade que vem tendo, está perseverando por conta do apoio que vem recebendo da equipe.

 

– Leite eu tenho um monte, agora é só a gente se adaptar. Eles me ajudam muito, é uma equipe muito boa, são super atenciosos. Todo o meu pré-natal foi feito ali. Tem que ter muita paciência e muita calma, não é fácil. Mas vale a pena, como vale! É muito gratificante, não tem coisa melhor que ver meu filho gordinho, pegando peso – relata, confiante de que vai continuar a receber o incentivo de que precisa para permanecer amamentando.

 

É possível encontrar a unidade de saúde de referência no site prefeitura.rio/ondeseratendido. Para doação de leite, busque um banco ou um dos postos do município, disponíveis no link https://bit.ly/3BRvOOI.

  • 2 de agosto de 2021