Ciclo de palestras e homenagens marcam terceiro dia da Semana da Consciência Negra

Publicado em 19/11/2020 - 19:37 | Atualizado em 19/11/2020 - 19:42
Evento será encerrado nesta sexta-feira com apresentação de capoeira no Cais do Valongo e na estátua do Zumbi dos Palmares Foto Robert Gomes

No terceiro dia da Semana da Consciência Negra, a Guarda Municipal, realizou nesta quinta-feira, dia 19, um ciclo de palestras sobre o tema no auditório da sede, em São Cristóvão. O dia também foi marcado por homenagens a servidores e personalidades amigas da instituição com a entrega da comenda “Guarda Negra”.

A primeira palestra foi sobre “Racismo Estrutural” ministrada pelo guarda municipal Paulo César do Nascimento, diretor do Rio Acolhedor, unidade de reinserção social da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos em Paciência, na Zona Oeste.

Paulo falou sobre o trabalho realizado no Rio Acolhedor e destacou que uma das heranças do período pós-escravidão é retratada na quantidade de pessoas negras e pardas que estão à margem da sociedade. Ele falou tambem da necessidade de se estabelecer penas mais duras para os crimes de racismo. A maioria das ocorrências são registradas como injúria racial, que tem pena mais leve, fato que ajuda a propagar a sensação de impunidade das vítimas deste tipo de crime. Por fim, ele falou sobre o perfil do público atendido no Rio Acolhedor, a grande maioria negros e pardos.

– A maioria das pessoas que estão na rua não nasceram e nem foram criadas na rua. São pessoas com família e história igual à minha ou a sua, mas que não vão conseguir sair desta situação sozinhas. É uma herança triste da lei áurea, onde muitos negros foram colocados à margem e estão lá até hoje. Estamos a caminho de um precipício se não mudarmos nossa forma de pensar e lidar com esta situação – afirmou Paulo Nascimento, que trabalha há mais de dez anos como diretor do abrigo Rio Acolhedor.

Em seguida, o professor de engenharia elétrica do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ), o senegalês Mamour Sop Ndiaye, ministrou palestra com o tema “Saberes da África”. O professor é pai da adolescente Fatou Ndiaye, de 15 anos, que foi vítima de racismo por parte de alunos de um colégio particular da Zona Sul do Rio, que escreveram mensagens ofensivas em um grupo de WhatsApp. O episódio gerou muita repercussão nas redes sociais em maio deste ano.
Durante a palestra, Mamour Ndiaye resgatou a história da África desconhecida de muitos brasileiros. Como exemplo, falou das cerca de 90 mil obras de artes roubadas dos africanos e expostas em grandes museus europeus, contribuindo para que boa parte da história do continente esteja fora do local de origem. Disse, também, que o conhecimento da história da África é fundamental para entender melhor a situação do negro no mundo e traçou uma linha do tempo com os principais acontecimentos que marcaram a história do continente e formou o que ele é hoje.

– A origem de todos os problemas é a falta de conhecimento e quando você não cultiva os seus valores, acaba reproduzindo valores dos outros. A escravidão foi a maior tragédia de todos os tempos e a colonização dos países africanos foi muito ruim também. Fez com que a gente procurasse a cultura do outro ao invés da nossa. A África tem uma história linda e rica e queremos que os brasileiros conheçam mais os nossos valores – afirmou o professor Mamour Ndiaye.

O ciclo de palestras também contou com apresentação musical da servidora Flávia Chaves, que cantou “Olhos Coloridos”, composta por Macau e imortalizada na voz de Sandra de Sá; e “Canção das três raças”, composta por Mauro Duarte e Paulo Pinheiro, famosa na voz de Clara Nunes. As duas músicas retratam bem o sofrimento, as lutas e os desafios enfrentados pelos negros na sociedade.

No período da tarde, aconteceu a solenidade de entrega da comenda “Guarda Negra”, que leva o nome do comandante da Guarda Municipal, inspetor geral José Ricardo Soares, como homenagem ao primeiro GM negro a ocupar o cargo mais alto da instituição. A comenda é uma ação especial criada para homenagear pessoas que fazem a diferença e inspiram outras pessoas dentro e fora da instituição. A abertura contou com apresentação musical do subinspetor José Luiz Alves, que cantou a música “Canção das três raças” e Benicio Soares, que cantou “Identidade” de Jorge Aragão.

– A trajetória do negro até aqui foi muito difícil. Muitos morreram nesta vinda da África para cá. Temos como ponto histórico o Cais do Valongo, onde os negros eram jogados e tratados como coisas. Por isso, a busca pelo conhecimento é fundamental para mudança da nossa história. É pelo conhecimento e pela cultura que mostramos que somos capazes de chegar a qualquer lugar – afirmou o comandante da Guarda Municipal, inspetor geral José Ricardo Soares.

Foram homenageados o GM Mauro Aurélio Ferreira dos Santos, morto durante o serviço no Centro do Rio, em dezembro de 2003. A medalha foi recebida pelo Subinspetor Valdez Lemos, do Grupamento de Operações Especiais (GOE), que representou a família do GM. Também recebeu a comenda o GM Moysés Felisberto da Silva, da Subdiretoria Técnica de Ordenamento da Cidade (Subdoc).

Outras duas personalidades de fora da instituição foram homenageadas. A primeira foi a desembargadora do Tribunal de Justiça, Ivone Ferreira Caetano, que tem uma longa história de luta contra o racismo. Primeira juíza negra do Estado do Rio de Janeiro, sua história inspirou a Ordem dos Advogados do Brasil na criação da medalha “Rosa Negra”, entregue anualmente a profissionais que lutam pela defesa dos direitos da população negra. Em seguida, a homenagem foi entregue ao cônsul-geral de Angola no Rio de Janeiro, Mateus de Sá Miranda Neto, marcando a longa parceria que a Guarda Municipal do Rio tem com o consulado.

– Aqui deixo meu profundo agradecimento neste momento em que comemoramos a semana solene da consciência negra. Esta semana também celebramos o aniversário da independência de Angola e lembramos que o Brasil foi o um dos primeiros países a reconhecer esta decisão, em novembro 1975. Nossos vínculos são históricos e desejo que a reflexão pelo dia da consciência negra não se restrinja somente ao dia 20, mas que seja algo diário e permanente em nossas vidas – afirmou o cônsul-geral de Angola.
A solenidade foi encerrada com apresentação das músicas “Olhos Coloridos” e “Camélias do Leblon”. Em seguida, no pátio da GM-Rio, aconteceu um show de samba de roda, maculelê e capoeira com apresentação da Banda Sinfônica.

Na sexta-feira, dia 20, feriado do Dia da Consciência Negra, haverá apresentações de roda de capoeira feita por guardas municipais em frente a dois monumentos históricos para a cultura negra na cidade. O primeiro será a partir das 6h, em frente ao monumento de Zumbi dos Palmares, no Centro do Rio. A partir das 10h, a roda de capoeira acontecerá no Cais do Valongo, no bairro da Saúde, Zona Portuária da cidade.

Dia da Consciência Negra

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado no dia 20 de novembro e foi incluído no calendário escolar em 2003. Em 2011, a lei 12.519 incluiu oficialmente a data em âmbito nacional. É feriado nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Este dia é dedicado à reflexão sobre a inclusão do negro na sociedade brasileira e foi escolhido por ser a data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares, considerado um dos maiores líderes negros do país.

  • 19 de novembro de 2020