Categoria:
BNDES e Prefeitura avançam na consolidação do Distrito Cultural Pequena África
Publicado em 21/10/2026 - 14:16 | Atualizado
Visão aérea do Cais do Valongo, que recebeu obras de valorização - Prefeitura do Rio O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciaram, nesta quarta-feira (21/10), avanços na consolidação do Distrito Cultural Pequena África, com a primeira requalificação urbana, a Praça dos Estivadores, e as parcerias para a implementação do Conservatório da Música Preta Brasileira, da Biblioteca Machado de Assis e da Fábrica. Os anúncios integram a Iniciativa Valongo, um amplo projeto de requalificação desenvolvido pelo BNDES, com apoio técnico do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo, e representarão investimentos iniciais da ordem de R$ 23 milhões, a serem captados entre recursos públicos e privados.
– O Distrito Cultural Pequena África é memória, mas é, acima de tudo, futuro. Essa região é muito mais do que uma prioridade de governo: é absolutamente necessária para construir o futuro do Rio de Janeiro e do Brasil. Cada espaço desse projeto, do Conservatório de Música Preta à Biblioteca Machado de Assis, faz parte dessa construção – declarou o prefeito Eduardo Cavaliere, durante anúncio de novas ações no Distrito Cultural Pequena África realizado no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no bairro da Gamboa.
Em seu discurso, a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destacou que o projeto vai além da recuperação física e envolve também a preservação da memória e do patrimônio imaterial da região.
– A construção do Distrito Cultural Pequena África exige escuta, participação e construção coletiva. Escolhemos um caminho mais complexo, que valoriza o território e as pessoas que mantêm viva sua memória, cultura e história. Esse processo leva mais tempo, mas é fundamental para que o projeto seja sustentável e represente a resistência e a riqueza cultural da Pequena África. Estamos dando mais um passo nessa construção – comentou Tereza Campello.
Com investimento de R$ 2 milhões, a Prefeitura do Rio fará a requalificação total da Praça dos Estivadores, transformando-a em um espaço acolhedor para quem vive, trabalha e circula pelo local, com novas condições de permanência, convivência e realização de atividades culturais. Canteiros ajardinados, bancos e estruturas de sombra deverão ampliar as áreas de permanência e melhorar o conforto ambiental. A iluminação será qualificada para favorecer a segurança e o uso noturno, enquanto as conexões com o entorno serão pensadas para dar maior prioridade aos pedestres.
A relação da praça com a cultura também está no centro da proposta. O espaço deverá receber apresentações artísticas, encontros, rodas de conversa, feiras, ações educativas e atividades comunitárias, com atenção especial às manifestações culturais que já ocupam a região. Um dos elementos previstos é um sistema de interpretação territorial, com dois totens: um deles apresentará um mapa com equipamentos, percursos e pontos de interesse do Distrito Cultural, e o outro contará a história da própria Praça dos Estivadores, dos trabalhadores portuários e da formação afro-brasileira do território.
A proposta foi desenvolvida a partir de demandas identificadas durante as etapas de escuta realizadas com moradores, instituições e agentes culturais locais. Entre elas estavam a necessidade de ampliar as áreas de sombra e permanência, criar melhores condições para atividades culturais e educativas e fortalecer a presença da memória afro-brasileira e da história dos estivadores no espaço público. A localização da praça também contribui para sua importância dentro do projeto. Ela está próxima à sede do Afoxé Filhos de Gandhi, à Casa Tia Ciata, aos Jardins Suspensos do Valongo e à Casa João de Alabá, estabelecendo uma conexão direta com lugares que já são referências culturais e de memória da Pequena África.
– Essa entrega inaugura um novo momento na valorização da Pequena África, reconhecendo a sua importância histórica e a sua dimensão de resistência. É também um passo na construção de um futuro que promova a reparação e preserve essa memória para as próximas gerações do Brasil – destacou a ministra da Cultura, Margareth Menezes.
A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, falou sobre a importância da Pequena África para o reconhecimento da memória negra, a reparação histórica e o enfrentamento das desigualdades raciais.
– Preservar a memória negra é honrar nossos ancestrais, enfrentar as injustiças do presente e construir um futuro onde todos nós possamos caber – disse a ministra.
Equipamentos culturais
No evento, o BNDES assinou acordo de cooperação técnica com a Fundação Biblioteca Nacional, para a requalificação de um imóvel próprio da Fundação para a criação da Biblioteca Machado de Assis. O espaço, com investimento previsto de R$ 8 milhões, a serem captados, tem como objetivo valorizar a literatura afro-brasileira, a memória oral e a formação crítica, e contará com auditório, sala de exposições, acervo e terraço com jardim e café.
Por meio do acordo de cooperação técnica entre o BNDES e o Instituto Cultne, será construído o Conservatório da Música Preta Brasileira, com investimento previsto de R$ 8 milhões, a serem captados, em terreno desapropriado e cedido pela Prefeitura do Rio, na região do Largo da Prainha. O equipamento cultural vai atuar na formação, ensaios, produção e registro musical, fortalecendo a transmissão dos saberes ligados a música e às manifestações culturais da região, garantindo a permanência viva dos ritmos negros como patrimônio e linguagem contemporânea, unindo memória, escola, palco, estúdio, mirante e praça.
Já a Fábrica, acordo de cooperação técnica que será assinado entre o BNDES e a Fundação Darcy Vargas, com investimento previsto de R$ 5 milhões, a serem captados, acrescenta uma frente voltada à produção e à geração de renda, um espaço de capacitação, apoio técnico e comercialização para produtores e empreendedores locais, com atenção à economia solidária negra e aos produtos afrocentrados. O equipamento também poderá funcionar como uma estrutura de apoio ao desenvolvimento de negócios ligados à identidade cultural do território.
Histórico
O Distrito Cultural Pequena África é uma das iniciativas mais abrangentes em curso no país, voltado à valorização da memória negra e à requalificação urbana de um território central para a formação histórica do Rio de Janeiro e, também do Brasil. O projeto se estrutura a partir do conceito de museu de território, organizando o espaço urbano como uma rede viva de memória, cultura e produção contemporânea, construída em diálogo permanente com quem vive, pesquisa e atua na região.
Desde o início, sua formulação foi orientada por um processo contínuo de escuta, que estruturou as bases do trabalho e consolidou uma leitura compartilhada sobre os desafios e potencialidades da Pequena África, evitando que o planejamento se dissocie das dinâmicas reais do território.
O Comitê Gestor do Sítio Arqueológico Cais do Valongo indicou 7 instituições dentre seus integrantes para analisar o escopo e acompanhar o desenvolvimento do trabalho junto ao BNDES. Dessa análise surgiram estudos específicos sobre o ambiente na região, obrigatoriedade de um mínimo de 30% de profissionais negros e obrigatoriedade de curso de letramento racial para toda a equipe contratada pelo BNDES, além de um concurso para arquitetos e urbanistas negros submeterem ideias para o desenvolvimento do projeto.
Entre dezembro de 2024 e o primeiro trimestre de 2025 e em 2026, foram realizadas diversas oficinas presenciais no IPHAN, no BNDES e na Galeria Providência, além de fóruns ampliados e grupos de discussão temáticos, reunindo moradores, lideranças, pesquisadores, gestores culturais e representantes de instituições públicas.
Esse processo foi complementado por pesquisas qualitativas e quantitativas, pelo concurso de ideias e por visitas técnicas a experiências de museologia comunitária e gestão cultural em territórios negros no Rio de Janeiro, em Salvador e em São Paulo, realizadas por técnicos do projeto junto de 10 entidades integrantes do Comitê Gestor, ampliando o repertório e incorporando referências práticas de outras cidades. As contribuições recolhidas nessas etapas orientaram diretamente a definição das diretrizes que estruturam o projeto.
Entre as propostas estão a criação de novos equipamentos que têm o propósito de dar apoio ou complementar os agentes existentes no território e são estruturados com 4 pilares: guarda, formação, difusão e produção. O Centro de Interpretação e Museu Vivo da Pequena África, associado ao edifício Docas e ao Cais do Valongo, foi concebido, por exemplo, como um espaço dedicado à memória, à educação e à cultura. O projeto prevê exposições sobre a diáspora africana, a escravidão, as resistências negras e a formação da Pequena África, além de áreas para pesquisa arqueológica, formação e atividades abertas ao território.
O plano do Distrito Cultural Pequena África inclui ainda propostas de qualificação de ruas, praças e percursos, entre elas intervenções na Rua Camerino, na Praça da Harmonia, na Rua e Ladeira do Livramento e na Promenade do Valongo. Há também ideias relacionadas à arborização, mobilidade ativa, espaços de convivência e circuitos culturais e históricos. Algumas compõem o campo das possibilidades a serem discutidas. É o caso de propostas estudadas para habitação social em áreas como a Pedreira, que integram o repertório do planejamento, mas não são projetos definidos para implantação. As ideias para a Pedreira e outras iniciativas poderão ser aprofundadas a partir do diálogo com a Prefeitura, moradores, instituições e sociedade.
Além dos projetos urbanos e novos equipamentos, o projeto também dedica atenção às instituições presentes no território. Seja por meio de projetos de adequação e restauro de equipamentos com a sede do Afoxé Filhos de Gandhi ou a extensão do Instituto Pretos Novos, seja por meio do apoio a comunidade local em se organizar melhor e juntar seus esforços sob forma de uma associação local capaz de potencializar suas vozes.
Mais do que estabelecer um conjunto fechado de obras, o plano do Distrito Cultural oferece uma visão integrada para a Pequena África. Seus três eixos estruturantes são patrimônio, ambiência e clima e desenvolvimento socioeconômico, com diretrizes voltadas à preservação da memória, à qualificação urbana, à mobilidade, à resiliência ambiental e ao fortalecimento das atividades econômicas locais.
Território fundamental para a história do Brasil
A dimensão desse planejamento só pode ser compreendida quando se olha para a história da região. A Pequena África é um dos territórios mais importantes da memória afro-brasileira nas Américas. Sua trajetória reúne marcas da escravidão, mas também da resistência negra, da religiosidade, do trabalho, da música e da organização comunitária. Ao longo do tempo, esses diferentes elementos se sobrepuseram e ajudaram a formar parte importante da identidade do Rio de Janeiro e do Brasil.
O Cais do Valongo ocupa lugar central nessa história. Reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial, é considerado o maior porto de recepção de africanos escravizados do mundo. Estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de pessoas escravizadas tenham passado pelo local entre 1774 e 1831. O território, no entanto, não pode ser compreendido apenas pela história da violência escravista. A presença negra que se consolidou na região produziu redes de solidariedade, espaços de religiosidade, formas de organização do trabalho e manifestações culturais que atravessaram gerações.
Personagens como Tia Ciata, João Alabá e Hilário Jovino fazem parte dessa trajetória. A Pedra do Sal, a Casa Tia Ciata, o Afoxé Filhos de Gandhi, o Instituto dos Pretos Novos, o Centro Cultural José Bonifácio e tantos outros lugares constituem referências de uma história que permanece viva. Foi também nesse território que se desenvolveram importantes manifestações da cultura popular carioca. O samba, o Carnaval, os blocos, as rodas e outras expressões musicais e religiosas estão ligados à presença e à atuação das comunidades negras que fizeram da região um espaço de criação e resistência.
Essa história deixou marcas que ultrapassam os limites dos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo e alcançam a formação da própria cidade. A Pequena África se estende por um território que inclui ainda áreas do Centro, da Cidade Nova e do Estácio, reunindo diferentes paisagens e lugares associados à presença negra no Rio. É essa dimensão que o projeto do Distrito Cultural procura reconhecer. Não se trata apenas de preservar edifícios ou sítios arqueológicos, mas de valorizar uma paisagem cultural formada por pessoas, instituições, práticas e lugares que continuam produzindo significado.
A Praça dos Estivadores está inserida nessa história. Seu próprio nome remete ao trabalho portuário e à organização dos trabalhadores. Antes disso, o espaço foi Largo da Imperatriz e Largo da Redenção, acumulando diferentes momentos da formação urbana da região. Sua requalificação procura tornar essas camadas mais visíveis sem transformar a praça em um espaço exclusivamente dedicado à memória. O projeto quer que ela continue sendo uma praça: um lugar de passagem, encontro, descanso, convivência e manifestação cultural, mas com melhores condições para que a história que existe ao seu redor também possa ser percebida.
A proposta do Distrito Cultural parte justamente dessa combinação entre passado e presente. O território já possui uma identidade, uma produção cultural e uma rede de instituições. O desafio é criar condições para que essa estrutura possa permanecer, se conectar e encontrar novas possibilidades de desenvolvimento. A Praça dos Estivadores é o primeiro a avançar nessa direção. Seu projeto coloca no espaço público uma parte da visão construída pelo plano do Distrito Cultural Pequena África e abre caminho para que outras propostas sejam discutidas e amadurecidas.
Notícias
Elevados e túneis serão fechados para manutenção nesta quarta-feira
21 de outubro de 2026Programa Corredores de Excelência implementa frente de serviços urbanos na Praça General Osório
21 de outubro de 2026Força Municipal apreende adolescente após tentativa de roubo de cordão no Centro do Rio
21 de outubro de 2026Secretaria de Inclusão promove debate sobre atividade física no autismo
20 de outubro de 2026
Elevados e túneis serão fechados para manutenção nesta quarta-feira
21 de outubro de 2026
Força Municipal apreende adolescente após tentativa de roubo de cordão no Centro do Rio
21 de outubro de 2026
Secretaria de Inclusão promove debate sobre atividade física no autismo
20 de outubro de 2026








