Prefeitura do Rio acolhe e oferece curso a ex-mestre-sala campeão da Mocidade que hoje vive nas ruas

Publicado em 24/02/2020 - 09:39 | Atualizado em 24/02/2020 - 21:38
Alexandre Salino foi mestre-sala vencedor da Mocidade: "A Prefeitura e a Cruz Vermelha jogaram uma boia para mim, eu me agarrei". Foto: Divulgação/ Cruz Vermelha
Carnaval de 1991, a Mocidade Independente de Padre Miguel é consagrada campeã com o enredo “Chuê, chuá, as águas vão rolar”. O mestre-sala da escola naquele ano era Alexandre Salino que, após anos sob os holofotes, hoje passa os dias na rua e dorme no Hotel Solidário Central do Brasil, da Prefeitura do Rio. A situação do ex-parceiro de Avenida surpreendeu Babi Cruz, mulher do compositor Arlindo Cruz e porta bandeira da verde e branco nas décadas de 1980 e 1990.
– Dancei com o Alexandre dos 12 anos de idade aos 24. Foram 12 anos juntos. Ele chegou a morar na minha casa quando a mãe morreu num incêndio na casa dele, ainda garoto. O pai biológico não conheci, mas ele teve um pai de criação, o Adilson, que é meu mestre, minha referência na dança de mestre-sala e porta-bandeira. O Adilson fez de um tudo. Criou os outros quatro irmãos do Alexandre, casou os meninos, é avó. Ele tem um trabalho maravilho de oficina de mestre-sala e porta-bandeira. E o Alexandre realmente é um talento diferenciado, um potencial de dança maravilhoso, mas com personalidade difícil – conta Babi.
Para a empresária, é um sofrimento toda vez que tem uma notícia ruim do amigo:
– Uma vez o Arlindo encontrou o Alexandre em São Paulo. Ele teve uma equipe de som lá, ficou equilibrado por um bom tempo, mas, não sei por que cargas d’água, apareceu no Rio com a roupa do corpo. Sou madrinha da filha dele, ela é muito bem criada pelos avós maternos, mas essa situação toda é muito triste e estou disposta a ajudá-lo mais uma vez. Espero que consiga se restabelecer com dignidade.
Diploma em mãos
Alexandre já conseguiu dar um passo para se reerguer. No início de fevereiro, recebeu o diploma do curso de cuidador social, oferecido pela Cruz Vermelha em parceria com a Prefeitura do Rio, que promete ser seu passaporte para sair das ruas, onde vive há seis meses. Apesar de ser talentoso, reconhecido no mundo do samba, ele teve problemas com drogas e acabou perdendo tudo o que tinha. Mas  garante estar longe do vício há quatro meses, desde que começou a aprender sobre a nova profissão, e acredita ser possível escrever uma nova história.
– Esse é o primeiro diploma que tenho na vida. É a primeira coisa que eu começo e consigo terminar. A Prefeitura e a Cruz Vermelha jogaram uma boia para mim, eu me agarrei. Tenho certeza que assim vou conseguir chegar à terra firme – garante Alexandre, bastante otimista.

Entre a praça e o hotel da Prefeitura

Com o diploma em mãos, ele agora espera uma oportunidade de trabalho para retomar sua vida e servir de inspiração para outras pessoas em situação de rua. Ainda sem moradia própria, Alexandre costuma passar os dias na Praça da Cruz Vermelha, no Centro do Rio, e dormir no Hotel Solidário, da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.
– Esse curso significa a oportunidade de escrever novas linhas na minha vida – afirma Alexandre, que desde criança teve que lidar com dificuldades, como a morte da mãe.
Alexandre Salino brilho na Mocidade Independente de Padre Miguel, como em 1991, quando a escola foi campeã, com o enredo “Chuê, chuá, as águas vão rolar”. Foto: Arquivo Pessoal/Babi Cruz

 

Prefeitura certifica 230 Cuidadores

Alexandre é um dos 230 alunos que frequentaram a turma mais recente do curso de Cuidador Social Comunitário, oferecido pela Cruz Vermelha do Brasil em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação. A formatura foi no início de fevereiro, no Teatro Carlos Gomes.

O curso

Durante o curso, os alunos aprenderam noções de cuidador de idosos, cuidador de crianças, primeiros socorros, psicologia do desenvolvimento e serviço social aplicado à infância e à terceira idade.
– Dar oportunidade para as pessoas se qualificarem pode fazer toda a diferença na vida delas. Com uma profissão, é aberta uma grande janela de oportunidades para ter renda e, muitas vezes, resgatar a dignidade – diz o secretário de Desenvolvimento, Emprego e Inovação, Renato Moura.