Lona Cultural Municipal Terra Guadalupe reabre com Deborah Colker em apresentação de ‘Cão sem plumas’ e bate-papo

Publicado em 12/07/2021 - 15:55 | Atualizado
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Performance é a primeira da artista com temática explicitamente brasileira - Divulgação/Prefeitura

Marcando a reabertura da Lona Cultural Municipal Terra Guadalupe, na Zona Norte, a diretora e coreógrafa Deborah Colker apresentou, em vídeo, seu “Cão sem plumas” (2017) – eleito melhor espetáculo na Rússia – e participou de bate-papo com cerca de 120 pessoas na noite de quinta-feira (8). A performance é a primeira da artista com temática explicitamente brasileira, baseada no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), lançado em 1950.

– Todo artista tem de ir aonde o povo está’ (de Milton Nascimento) é o verso da minha vida. Nunca tinha estado em Guadalupe, uma oportunidade única de apresentar meu trabalho para mais gente. A dança é tão poderosa que conversa com todas as artes, inclusive com a literatura – disse Deborah. – Eu adoro público, seja ele cinco ou cinco milhões. Danço do mesmo jeito.

O secretário municipal de Cultura Marcus Faustini esteve presente, junto com a equipe que gere o equipamento cultural, criado em 2000 e erguido com o apoio da Associação Cultural Amigos do Sanhaço. O nome foi uma homenagem ao título de uma canção de Caetano Veloso.

– Em janeiro, quando assumimos, encontramos as lonas em situação precária. Este início de ano está sendo muito difícil, mas estamos cuidando para que a cultura carioca renasça. O principal agora é a vacinação, depois disso, tenho a certeza, de que vai acontecer – comentou Faustini.

Um dos presentes no encontro, o grafiteiro e artista plástico Rodrigo Sini (@rodrigosini ), 39 anos, do bairro Ricardo de Albuquerque, teve um motivo a mais para retornar à lona Terra. É a primeira vez que ele assistiu a um espetáculo de Deborah Colker.

– Se hoje sou formado em Belas Artes na UFRJ é graças a este equipamento, pois foi aqui que fiz o pré-vestibular, em 2009 – contou o artista, que cria, no ateliê em sua casa, desenhos e pinturas a partir de fotografias de crianças negras, a partir de instrumentos como caneta e aquarela.

– Acredito que só a arte, a cultura e a educação combatem a violência.

 

Deborah Colker em ação – Divulgação/Prefeitura

 

Outra estreante em Deborah Colker, a dançarina e professora de dança Ingrid França (ingrid.francca ), 20, de Guadalupe, esteve lá junto com seus colegas de Instituto de Dança Priscila Ferraz e saiu com uma certeza:

– Escolhi a profissão certa e pretendo, quem sabe um dia, fazer um teste para a cia dela.

Depois da exibição, uma das participantes fez uma observação que chamou a atenção: “ficou claro para mim que João Cabral fala da miséria humana, de coisas inaceitáveis. ‘Cão sem plumas’ é o rio sem vida, sem brilho. Faz parte da terceira fase modernista, da geração de 45.”

– A cultura gera emprego, dinamiza a economia e alimenta a classe artística. A ideia é mostrar este lado do bailarino, que dança o tempo todo, todo dia. o corpo está atento a todos os movimentos – ressaltou Deborah Colker.

Desde 2018, a coreógrafa se prepara para a estreia de “Cura”, seu mais novo espetáculo, baseado no encontro de fé e ciência, “nada a ver com o coronavírus”, como ela avisa. O lançamento estava, inicialmente, marcado para janeiro de 2021, em Londres, não fosse uma pandemia no meio do caminho.

– Parte da minha experiência de vida, tenho um neto de 11 anos que nasceu com uma doença sem cura, o que causou em mim muita indignação.

‘Cão sem plumas’, por Deborah Colker

Este poema, em especial, trata do Rio Capibaribe, o rio das capivaras que atravessa o estado de Pernambuco onde nasceu o autor. Precisamos dos rios, que fazem bem às cidades. Um poema atual por abordar tragédias e misérias na natureza. Fala de um homem bicho, um caranguejo. Como sou uma pessoa da dança, tive que descobrir o corpo deste homem. É muito duro trabalhar embaixo de sol quente. De pele castigada, doída, resistente. A pele do Brasil.

Filmamos as cenas em Pernambuco em 25 dias, com aval do cineasta Cláudio Assis. Levamos três anos e três meses para fazer todo o espetáculo. O tempo é muito importante porque te faz mudar de ideia. Somos 13 bailarinos no palco, sete mulheres e seis homens. Fui casada com um fotógrafo, pai dos meus filhos, que me apresentou João Cabral e a palavra espesso. Nunca mais esqueci.

  • 12 de julho de 2021