Carnaval: professora de música da rede municipal realiza o sonho de tocar chocalho na bateria da Portela

Publicado em 19/04/2022 - 06:09 | Atualizado em 19/04/2022 - 13:38
Eliane começou a tocar chocalho na bateria da Portela em 2008 - Alexandre Macieira/Prefeitura do Rio

A música faz parte da vida de Eliane Zagni desde quando era bem pequena e ouvia os solos de sua mãe ao piano. Mais tarde, ao se decidir pela profissão de professora, optou por seguir os passos maternos. Primeiro, se tornou bacharel em piano, e depois concluiu a licenciatura em educação artística, com habilitação em música. Mas, nos momentos de lazer, preferiu ingressar na bateria da Portela, em que toca chocalho, em vez de fazer parte de uma orquestra e se apresentar nas salas fechadas dos concertos. Eliane é a segunda entrevistada da série de reportagens que mostra a relação do servidor público municipal com o carnaval, a maior festa popular do país.

A professora pianista conta que se apaixonou pelo carnaval ainda criança, quando assistia aos desfiles de blocos nas ruas de Ramos, bairro onde morava. Vizinha da Imperatriz Leopoldinense, passou parte da adolescência e juventude escutando de casa os sambas que eram tocados nos ensaios da escola verde e branca. O sonho de desfilar na Sapucaí, no entanto, teve que ser adiado. Eliane se casou com 21 anos e logo teve três filhos.

– Tive que esperar meus filhos ficarem maiores para começar a desfilar. Antes, gostava de assistir aos desfiles no Sambódromo e vibrava muito quando a bateria passava ao meu lado. Eu levantava na hora e começava a sambar.

A professora de música dava aula na Escola Municipal Pio X, no Tanque, em Jacarepaguá, quando, há 15 anos, recebeu de uma amiga do trabalho o convite para desfilar numa ala coreografada da Portela.  Em 2008, com os filhos já crescidos, Eliane estreou na Sapucaí e  não parou mais. Naquele mesmo ano, começou a frequentar a quadra, as feijoadas, até que criou coragem  e perguntou ao Mestre Nilo Sérgio, que até hoje comanda a bateria da tradicional escola de Madureira, se poderia fazer parte da Tabajara.

– Ele falou: ‘A gente vai começar daqui a um mês, aparece aí’. Eu já morava na Barra e fui sozinha, segunda à noite, para Madureira. Cheguei e fui muito bem acolhida. Foi um sonho que consegui realizar, a bateria é o coração da escola. Para tocar chocalho é preciso ter mais técnica do que força, diferentemente daquilo que muitos pensam. É um instrumento que tem uma participação  importante porque  dá apoio ao toque das caixas.

Professora da rede de ensino desde 1996, Eliane também já deu aula na Escola Municipal Burle Marx, em Curicica. Atualmente, trabalha no Núcleo de Arte Albert Einstein, no Condomínio Novo Leblon, na Barra da Tijuca.  São atividades extracurriculares, desenvolvidas no contraturno, em que alunos de 7 a 14 anos, de escolas do entorno de Jacarepaguá, Cidade de Deus e até de Guaratiba, aprendem a tocar flauta doce e teclado, além de participarem das aulas de canto e coral.

– Todo início de ano, gosto de trabalhar o tema carnaval. Os grupos formados pelos alunos estudam as escolas de samba, marchinhas, sempre contextualizando o momento. As crianças gostam muito, porque descobrem as cores da bandeira da escola, nomes das baterias, os bairros de cada agremiação, temas dos enredos.

Eliane foi campeã pela Portela em 2017, quando a agremiação quebrou um longo jejum de 33 anos sem títulos. A professora espera repetir a façanha neste carnaval. Ela se diz orgulhosa de fazer parte de uma escola de samba histórica, que defende a tradição da música e da cultura carioca.

– A escola de samba é uma segunda casa, não é só o dia do desfile, não. Há uma convivência intensa com a comunidade nos ensaios, nas feijoadas. Na hora da apuração, eu vou para a Portela e levo o chocalho. Fico muito triste quando a bateria não leva nota 10.

A Portela será a segunda escola a entrar no Sambódromo, no sábado (23/4), no segundo dia de desfiles do Grupo Especial. A azul e branca de Madureira levará para a Avenida o enredo “Igi Osè Baobá”, de autoria dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage. A história vai retratar a simbologia dos baobás, árvores gigantescas e milenares originárias da África.

 

A professora dá aula de canto e coral a alunos de uma escola na Barra da Tijuca – Arquivo pessoal

 

 

Eliane com o mestre de bateria da Portela, Nilo Sérgio – Arquivo pessoal

 

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