Artista da ‘Consciência Negra’ é revelado em abrigo da Prefeitura após ter sido abatido pela pandemia

Publicado em 20/11/2021 - 08:36 | Atualizado em 21/11/2021 - 07:25
Numa das telas do artista despontam os olhos vazios de um rosto negro - Fernando Maia/Prefeitura do Rio

“A sociedade quer arrancar o nosso olhar”. Assim o cenógrafo Ezequiel Góes, 43 anos, define uma das telas de sua primeira série autoral, que começou a desenvolver há pouco mais de uma semana. Nela despontam os olhos vazios de um rosto negro, como o dele, que há dez meses chegou ao Centro Provisório de Acolhimento 3, na Praça Mauá, abatido pela pandemia de Covid-19 e sem nenhum ânimo para fazer aquilo que mais gosta e de onde tirava seu sustento: a arte.

 

Dia da Consciência Negra é comemorado com diversas atividades

 

No abrigo da Secretaria Municipal de Assistência Social, o artista plástico habilidoso estava praticamente escondido e foi se revelando aos poucos. Ezequiel é capaz de reproduzir qualquer cena em quadros e, nos últimos tempos, está criando as suas próprias obras. Ele participou de várias produções artísticas, inclusive montando cenários no Theatro Municipal do Rio. Estimulado pela equipe técnica do CPA 3, há quatro meses retomou os pincéis e, há poucos dias abraçou a “Consciência Negra” como tema.

 

– A gente é vetado e quero expressar isso. É meu grito de liberdade – resume.

 

Quem entra no espaço é imediatamente hipnotizado pelos quadros, expostos no térreo, onde espelha sua história em cenas pinceladas sobre telas em esmalte à base de água. “É mais ecológico, não faz tanto mal à saúde”, explica. É lá, no coração da diáspora negra brasileira, ao lado do Largo da Prainha e da Pedra do Sal, onde pinta a sua gente, enaltecendo olhares, cabelos, voz, beleza e cuidado.

Se numa peça expressa o vazio de seu olhar que enxerga roubado, em outra consegue reproduzir o brilho que agora traz nos olhos: o autorretrato “Solidão”, única peça que tinha batizado. Tímido, falando bem pouco, reluta a admitir que a idosa que recebe um beijo, numa tela grande, é inspirada em sua mãe, artista plástica que faleceu ano passado, aos 74 anos, de Covid-19 – outro baque em sua vida. “Chamaria esse quadro de… ‘Cuidado’…”, arrisca.

 

– É maravilhoso. Vamos montar uma exposição do Ezequiel. O público precisa conhecê-lo – reagiu a secretária municipal de Assistência Social, Laura Carneiro, ao ver seus quadros.

 

Recuperação

Carioca, Ezequiel começou a pintar ainda aos 7 anos, estimulado pela mãe. Como auxiliar de grandes cenógrafos do Theatro Municipal, ajudou a construir, na Central Técnica de Produção, em Inhaúma, cenários para peças como “Lago dos Cisnes” e “Copélia”. Ele relembra:

 

– Fui auxiliar de cenografia na época do Jair Lento, trabalhei com André Salles e Natália Lana – conta o artista, que também já fez capas de CDs.

 

– Na pandemia fiquei sem trabalho, morava em Marechal Hermes e não consegui pagar aluguel. O desânimo me fez parar de pintar, mas aqui no albergue voltei a acreditar em mim mesmo.

 

Ezequiel credita sua recuperação ao carinho e ao trabalho da diretora do espaço, Rosana de Souza e Silva, da psicóloga Eveline Andrade e da assistente social Fernanda Salete. “Elas não me deixaram desistir do sonho de pintar”.

Ezequiel já deixou sua arte registrada nas paredes do próprio albergue, e nas redondezas tem decorado bares para adquirir renda. Quando voltou a pintar trabalhava no térreo do CPA3, onde a luz é boa. Orientadas pelo psicanalista Marcelo Cunha, da 1ª Coordenadoria de Assistência Social (CAS), Rosana e as profissionais modificaram o acompanhamento de Ezequiel, que agora tem seu próprio espaço para criar durante o dia, onde também guarda o material.

 

– Faz parte da estratégia de redução de danos e favorece a inserção comunitária – explica Rosana.

 

“Esse é o caminho da vida dele. Com a arte, estimulamos seu sentido de existência, e eles voltam a querer viver”, completa Marcelo Cunha, autor do livro “No olho da rua”, em que descreve experiências de resgate de pessoas vulneráveis através da arte.

Com o dinheiro dos primeiros trabalhos, Ezequiel comprou telas e mais material para pintar. Vende quadros a R$ 140,00 (pequeno), R$ 180,00 (médio) e R$ 400,00 (grande). No momento, a equipe vem organizando um projeto de empregabilidade: Ezequiel pinta bolsas ecológicas com motivos turísticos da cidade, que são vendidas nas redondezas por outro acolhido. “Eles já venderam 12 sacolas e vão encomendar mais 50”, conta Eveline, explicando que o trabalho também consiste em dar suporte de educação financeira: “Explicamos o que é lucro, custeio e investimento. Assim eles ganham autonomia para se sustentar novamente”. E alçar voo.

 

 

Ezequiel já montou cenários no Theatro Municipal do Rio – Fernando Maia/Prefeitura do Rio

 

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  • 20 de novembro de 2021