Futuro em construção na Vila Cruzeiro

06/09/2017 18:30:00  » Autor: fotos: Erbs Jr.


 

Professores, alunos e comunidade ajudam a renovar escola cinquentenária

 

O cinza chumbo do muro com cerca de três metros de altura, as salas com portas de ferro dotadas de portinholas na parte superior e ferrolhos externos servindo de trancas e as grades espalhadas por várias dependências estão ficando no passado da Escola Municipal Bernardo Vasconcelos. Aos 51 anos, a unidade situada na Vila Cruzeiro, na Penha, vem ganhando um colorido sopro de vida, de alegria, de união e de engajamento de professores, alunos, pais e da comunidade em nome de uma nova escola.

 

Grafitado pelo artista Angelo Campos, ‘filho' da localidade que ganhou o mundo com sua arte, mas sempre retorna às origens, o painel pintado no muro da frente dá o tom dos novos tempos com a frase do escritor Rubem Alves: "Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo". E o voo da Bernardo Vasconcelos em direção a um futuro melhor para seus 419 alunos de 13 turmas do 6º ao 9º ano ultrapassa, inclusive, seus muros.

 

Desde fevereiro vários estudantes e ex-estudantes do colégio frequentam os cursos pré-técnico e pré-vestibular criado por professores para ofertar aos jovens da comunidade reforço gratuito nos estudos e, assim, aumentar suas chances de aprovação nas disputas pelas vagas com as quais sonham. Aos 15 anos, Katyane Martins Pontes, aluna do 9º ano,renovou suas esperanças com o apoio. "Agora complemento os estudos de matemática. É a primeira vez que tenho uma oportunidade assim", reconhece.

 

Mutirão recupera quadra

 

 

Aliás, transformar sonhos em realidade é desafio permanente na instituição desde o dia 27 de março, quando os professores Daniela Azini Henrique e Marcelo dos Santos Martins – nascido, criado e morador da Vila Cruzeiro – assumiram o comando da Bernardo Vasconcelos, ela na direção e ele como adjunto. Os dois já davam aulas de história e matemática, respectivamente, no colégio e sabiam dos anseios dos alunos por mudanças. Era preciso fazer a molecada voltar a sonhar, dar a eles uma escola de qualidade, mostrar que podem conquistar objetivos como qualquer outro jovem.

 

A construção das mudanças começou, literalmente, com pedras, cimento, areia. Foi com esses materiais doados ou comprados através de pequenas quantias conquistadas pelos professores e alunos junto à comunidade que a quadra esportiva esburacada foi recuperada. Para isso, durante três dias os alunos saíram com uma banda escolar pelas ruas e vielas da Cruzeiro em busca de arrecadações e, ao final da empreitada, captaram R$ 2.900.

 

O mutirão não reuniu apenas recursos materiais: todo mundo meteu a mão na massa. Em três semanas o espaço renasceu. "Sempre notamos que a frequência era mais alta no dia da aula de Educação Física. Mesmo com a quadra esburacada eles apareciam de meião e tênis. Aí, propusemos o mutirão", conta Marcelo Martins. Além de ter a área de volta, os alunos participantes do mutirão vão assinar seus nomes no painel de tijolos da fachada do prédio.

 

A quadra foi o pontapé da virada do jogo. O talentoso Angelo saiu, a pedido da direção, a colorir a fachada cinzenta e o interior da unidade. "Sempre frequentei a quadra para jogar bola. E meu grafite tem como foco dar voz aos nossos jovens, à comunidade", explica o artista, autor também dos painéis que sobem pelas paredes das salas do curso preparativo. O espaço, a cerca de 300 metros da escola, foi cedido gratuitamente pela Associação de Moradores do Parque Proletário da Penha.

 

Maior aprendizado e vínculo com a escola

 

Outra mudança a caminho é a troca das portas de ferro das salas por outras de madeira. "Vamos acabar com essa cadeia. Vamos acabar com essa ideia de que o aluno degrada o ambiente. Eles vão usar tudo. Queremos dar colorido à escola, concretizar o nosso projeto pedagógico, o ‘Ser e pertencer'. O objetivo é reverter todo esse movimento em aprendizado, frequência e maior vínculo com a escola. Aqui, nos vemos potência e, não, carência", afirma Daniela.

 

Outra boa nova é a transformação da sala de informática, "que ficava fechada", em espaço de comunicação popular com apoio do Centro de Estudos Multicultural da Vila Cruzeiro e de alunos de desenho industrial da UFRJ e da Uerj. Os universitários vão ensinar os jovens o uso de mídia digital e recursos audiovisuais.

 

Sacudida e participante das mudanças, a comunidade escolar responde. Júlia Paulo Alves da Silva, 15 anos, 9º ano, reflete sobre o próprio comportamento: "Houve uma mudança radical na escola. Mudei após nova direção. Já aprendi muita coisa. Agora há mais respeito com o aluno, mais conversa".


Além de dar aulas gratuitas, os professores da Bernardo Vasconcelos levaram colegas para lecionar no cursinho. ‘Vaquinhas' e ajudas de amigos, como o advogado Gilberto Santiago, ex-aluno da escola nascido e criado na Vila Cruzeiro, ajudam a manter o projeto em andamento. "É preciso entender que a educação gratuita pode mudar vidas. O estudo me libertou, a escola me deu oportunidade. Nada mais do que justo devolver isso", ensina Marcelo Martins, lembrando que a cobrança na escola e no curso é uma só: "Vontade de estudar".