Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro

 

 

 


Na edição recente da revista da Escola, trouxemos uma entrevista com a Professora Maria Regina Maluf, que aborda diretamente, francamente, questões que não costumavam ser tratadas aqui na SME ou nos ambientes de formação de professores. Na mesma linha, realizamos nos primeiros dias de outubro duas mesas com transmissão simultânea para toda a rede, retomando a questão da alfabetização sob uma abordagem, digamos, “heterodoxa”. Interessante que esse enfoque sobre alfabetização que goza de forte resistência acadêmica no Brasil, é adotado amplamente ao redor do mundo, tendo sua superioridade demonstrada em TODAS as pesquisas adequadamente conduzidas. Contudo, é preciso reconhecer que cautela é indispensável ao encaminhar o assunto e, sobretudo, as políticas educativas a ele associadas. Afinal, há uma já longa tradição que vem orientando o trabalho de alfabetização em nosso país. Os resultados apresentados deveriam acender as luzes de alerta há mais tempo, mas não é possível fazer uma imensa guinada em um passe de mágica. Precisamos seguir apontando que os caminhos trilhados majoritariamente na alfabetização brasileira – e da rede municipal do Rio – não são os únicos disponíveis. Há ampla sustentação científica, inclusive com muitos avanços recentes, que indicam a rota que enfatiza consciência fonológica, ensino claro e direto do código alfabético, distinção analítica e cronológica entre decodificação e compreensão, como bem mais eficazes para a alfabetização, especialmente para aqueles – adultos ou crianças – que mais dependem da escola, os que vivem em contextos com menos recursos.


Por isso, organizamos as mesas dos dias 1 e 3 de outubro, contando com, além de Maria Regina, com Alessandra Gotuzzo Seabra, José Morais e João Batista Araujo Oliveira. Muitos profissionais da rede puderam comparecer, perguntar, criticar, debater. Os registros em vídeo das atividades estarão, em breve, disponíveis aqui, no site da Escola. Temos a satisfação de colocar a EPF neste lugar de polo irradiador de inovação e debate acerca de nossos problemas educacionais. Alguns comentaram que sentiram falta de palestrantes que apresentassem um contraponto ao que foi apresentado. Sim, não houve contraponto. Foi intencional. Há muito pouco tempo ocorreu a Semana de Alfabetização e a Jornada de Educação Infantil. Ambas tiveram suas atividades centrais realizadas aqui, no mesmo palco. Foram tão bem acolhidas quanto, tiveram todo espaço para veicular suas ideias, como deveria mesmo ocorrer. Contudo, as abordagens apresentadas nestas duas mesas, promovidas diretamente pela equipe da EPF, estiveram ausentes daqueles dois eventos. Assim, diante do questionamento apresentado, pondero que nossos convidados mais recentes são eles o contraponto. Contraponto a uma concepção amplamente predominante no ambiente brasileiro, mas que expressa uma corrente científica que não mais enfrenta resistências relevantes, acadêmicas, no ambiente internacional.


Nossos avanços no trato de problemas reconhecidos como severos no país, com destaque, neste caso, para a alfabetização, dependem de sermos capazes de, sem passionalismo, sem espírito de clube ou de corpo, sem ideologização contraproducente, abordarmos o que for necessário com os recursos que a ciência provê. Entre estes está o debate franco e a busca da demonstração/refutação com base em evidências cientificamente válidas.


Em boa medida, as duas mesas recentes sobre alfabetização dão continuidade a outra atividade também realizada aqui na EPF: a Semana de Educação Socioemocional. Sua característica comum é a busca de amparo científico avançado para a definição de práticas e políticas educacionais que mais favoreçam nossos estudantes. Ao fim e ao cabo, não estão em jogo nossas preferências pessoais ou prestígio acadêmico e profissional. O que está em jogo é o aprendizado e desenvolvimento de uma imensa legião de estudantes, em sua maioria vindas de meios sociais que já contam com muitas desvantagens. Sua autonomia e sua capacidade de exercício pleno de cidadania dependem, em boa parte, daquilo que nossas escolas lhes possam proporcionar. Trata-se de um direito, como bem lembra sempre outro de nossos convidados recentes, o Professor José Francisco Soares.


Sobre sua fala acerca da BNCC e sobre os resultados da Prova Brasil 2017, trataremos em outro texto, em breve.